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A técnica

postado em 24/11/2010 16:39 por Bel Miranda   [ 24/11/2010 16:43 atualizado‎(s)‎ ]

É frequente dizer-se que os bailarinos de tango devem caminhar, na pista de dança, como se fossem felinos.
A subtileza, a elegância, a manha e a destreza do "andar de gato" que caracteriza os bons bailarinos de tango realça o entendimento do par, a sua sensualidade e a delicadeza dos seus movimentos.
Como conseguiremos, então, aprender a caminhar como gatos, decidir a direcção a tomar, proporcionar prazer ao nosso par e concentrarmo-nos na música, ao mesmo tempo?
Será “técnica"?
Têm toda a razão. Como em qualquer outra disciplina, aprender a dançar tango implica adquirir uma técnica. Essa técnica deve ser encarada como meio para desenvolver um estilo próprio, uma forma pessoal de dançar. A tentação de imitar os outros é o recurso dos bailarinos preguiçosos. Se falarmos de alguns bailarinos de tango de nível internacional, temos nomes como Pablo Veron, Miguel Angel Zotto, Osvaldo Zotto, Pablo Pugliese, Eduardo Arquimbau, Carlos Copello. Todos eles são, sem dúvida, excelentes bailarinos. Cada um ensina e dança o tango, de maneira diferente dos outros. O mesmo se pode dizer das bailarinas, por exemplo, nomes como os de Milena Plebs, Alicia Monti, Miriam Larici, Marcela Duran, Cecilia Saia, Lorena Ermocida, Esther Pugliese... e a lista poderia continuar. Todas bailarinas fabulosas, e no entanto, cada uma detendo um estilo único e pessoal.
Qual é o denominador comum a todos eles? É a técnica da dança.
A técnica é adquirida como conhecimento teórico mas só é completamente dominada com a prática. Claro que não podemos esquecer o talento. É o seu talento individual que lhes proporciona o "estrelato".

Muitas dos rituais próprios do tango argentino resultam de códigos de conduta, regras de etiqueta e de relacionamento social que foram sendo estabelecidos ao longo do tempo. Pode dizer-se que estes rituais nasceram e foram evoluindo a partir do momento em que o primeiro homem levantou o braço esquerdo e abraçou uma mulher com o direito.
A "salida", o início da dança, faz parte do ritual do tango.

Tradicionalmente, as mulheres que "mais bem" dançavam sentavam-se na primeira fila, à volta da pista de dança. Os homens estavam na pista de dança ou junto ao bar, locais de onde podiam ver e ser vistos pelas mulheres. Isto ainda acontece assim, nas milongas de Buenos Aires.
O objectivo do homem é procurar o olhar da mulher pretendida e pedir-lhe para dançar de maneira discreta, quase imperceptível, apenas com um ligeiro acenar da cabeça. A partir do momento em que os olhares se fixam, o homem dirige-se à mulher, sem desviar os olhos, assegurando-se, assim, de que é com ele que ela quer realmente dançar e não com outro que esteja por detrás, na mesma linha de visão.
Depois de aceitar este convite subtil, a mulher deve esperar que o homem se aproxime da sua mesa e, só depois, levantar-se e avançar para a pista de costas voltadas para a mesa. É das regras, que o par que entra na dança não perturbe o movimento de quem já se encontra a dançar.
O início da dança, a "salida", deve ser feito de acordo com o movimento geral dos outros pares - entrando na "ronda", quer dizer, na linha de dança - que se faz no sentido dos ponteiros do relógio.
O homem (de costas para o centro da pista) dá o seu primeiro passo para a esquerda e a mulher (de frente para o centro da pista) dá um passo para a direita. Depois, com uma rotação do tronco para a esquerda, o homem provoca a mudança de direcção do par fazendo com se integrem na "ronda" e possam completar a sequência de passos conhecida por "salida" ( que culmina na "cruzada"). Não é, no entanto, obrigatório que se proceda sempre desta maneira.

Deve-se começar, sempre, com um passo ao lado?
Não.

Pode começar-se com um passo atrás?
Sim.

Qual é a melhor opção: "salida" para trás, ou para o lado?
Qual a que nos permite controlar melhor o espaço disponível para dançar?
Em qual das hipóteses é menos provável pisar ou pontapear alguém de outro par?
Sobre a melhor maneira de iniciar a dança use-se o bom senso, em vez das divagações teóricas.
Na maior parte dos casos, em milongas apinhadas de gente, somos forçados, na prática, a iniciar a dança numa e apenas numa direcção.
Decerto se conseguirá sair do fluxo formado pelos pares que dançam (a "ronda"); mas será fácil voltar a entrar?
A "salida"
No início da dança os dois bailarinos devem estar de frente um para o outro com as pernas fechadas e os pés juntos. O primeiro passo faz com que eles continuem de frente um para o outro, mas com as pernas abertas.
Durante a dança os bailarinos mais não fazem que repetir, continuadamente, estes movimentos: abrir as pernas e fechar as pernas. Esta é uma visão muito simplista do tango, mas é de facto assim que se dança. Há, também, situações em que um deles abre as pernas enquanto o outro as fecha.
O tango pode ser visto também, por outro lado, como uma sequência sempre repetida de três momentos distinos: primeiro, a "marca", isto é, a intenção (do movimento a executar) que o homem transmite à mulher através do seu tronco, segundo, o movimento da mulher respondendo a essa solicitação, terceiro, e como consequência, o movimento do homem.
Um par de tango deve procurar movimentar-se como um gato: um só corpo (formado pelos dois troncos dos bailarinos) e quatro pernas deslocando-se independentemente desse corpo.
Dá-se um passo abrindo as pernas. Em seguida, para se poder dar mais um passo, fecham-se as pernas. Dar um passo ao lado - "apertura" - é abrir as pernas no sentido da largura. Dar um passo atrás ou à frente - "cruce adelante ou atras" - é abrir as pernas no sentido do comprimento.
Uma sequência de passos muito usada para executar a "salida" é a seguinte: um passo ao lado; dois passos na direcção para a qual o homem está voltado; e um fechar das pernas para voltar à posição inicial. Nesta posição os corpos dos dois bailarinos estão em contacto e completamente de frente um para o outro. Os seus pés podem estar simplesmente juntos ou cruzados.
Portanto, uma "salida" típica consiste em:
1. Um passo ao lado, dos dois bailarinos, para a direita da mulher. Depois o homem faz uma ligeira torsão do tronco, no sentido dos ponteiros do relógio, para poder caminhar "por fora" e pela direita da mulher.
2. Dois passos, à frente para o homem e atrás para a mulher.
3. Um passo, à frente para o homem e atrás para a mulher que, juntando os pés, cruza o pé esquerdo à frente do direito. Este movimento permite-lhe colocar-se de novo, completamente em frente ao homem. Esta posição é semelhante à posição inicial mas, agora, os pés da mulher estão cruzados.
Usa-se, com muita frequência, no tango, o cruzamento dos pés da mulher.
Sendo um movimento executado pela mulher é, no entanto, ao homem que cabe "marcar-lho".
Com efeito, todos os passos, todos os movimentos do tango são "marcados".
Este é um conceito fundamental e matéria da maior relevância.

Texto: Alberto Paz e Valorie Hart
Tradução: José Serrão
 
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